Seu gato é um predador. E a fauna silvestre está pagando a conta.
- MV. Luiza Alencar

- 19 de jun.
- 6 min de leitura
Imagine alguém soltando diariamente um predador dentro de uma unidade de conservação.
Agora imagine que esse predador mata aves, lagartos, anfíbios e pequenos mamíferos nativos.
Imagine ainda que a sociedade ache isso normal.
Você provavelmente ficaria indignado.
Mas é exatamente isso que acontece todos os dias quando gatos domésticos recebem acesso irrestrito às ruas.
A diferença é que, por serem animais carismáticos, presentes em milhões de lares e idolatrados nas redes sociais, seus impactos ambientais costumam ser ignorados, minimizados ou convenientemente esquecidos.
Enquanto discutimos conservação da biodiversidade, criamos áreas protegidas, investimos em pesquisa e tentamos evitar a extinção de espécies, milhares de predadores são liberados diariamente para circular em ambientes urbanos e fragmentos florestais.
E tudo isso com a aprovação dos próprios responsáveis.

O predador favorito da internet
Poucos animais conquistaram tanto espaço na cultura popular quanto os gatos.
Eles dominam vídeos, memes, perfis dedicados nas redes sociais e acumulam milhões de admiradores ao redor do mundo.
Mas existe um lado dessa relação que raramente aparece nos vídeos fofos.
Quando um gato retorna para casa carregando um pássaro morto, um lagarto ou um pequeno mamífero, muitas pessoas tratam a situação como algo engraçado ou até mesmo motivo de orgulho.
A cena costuma vir acompanhada de frases como: "olha o presente que ele trouxe." "Meu gato é um caçador."
"É o instinto dele." De fato, é o instinto dele. E é justamente por isso que ele não deveria estar circulando livremente em ambientes onde existe fauna silvestre.
O que a ciência realmente diz
Ao contrário do que muitos imaginam, gatos não caçam apenas quando estão com fome.
Eles continuam caçando mesmo quando recebem alimentação adequada, petiscos, sachês e todos os cuidados possíveis.
O comportamento predatório faz parte da biologia da espécie.
Um dos estudos mais conhecidos sobre o tema, conduzido por Woods, McDonald e Harris (2003) no Reino Unido, monitorou gatos domésticos com acesso ao ambiente externo e registrou uma média de aproximadamente 14 presas trazidas para casa por gato ao longo de um ano.
À primeira vista, esse número pode parecer pequeno.
O problema é que os pesquisadores destacaram que os animais levados para casa representam apenas uma fração das capturas reais. Muitas presas são consumidas no local, abandonadas ou simplesmente nunca chegam ao conhecimento dos responsáveis.
Estudos posteriores indicam que um único gato com acesso livre ao ambiente externo pode matar dezenas e, em alguns casos, mais de uma centena de animais silvestres por ano.
Agora faça uma conta simples.
Imagine um bairro com cinquenta gatos que têm livre acesso às ruas.
Imagine uma cidade com milhares deles. O problema deixa de ser um gato matando um passarinho. Passa a ser uma mortalidade contínua, silenciosa e gigantesca.
Os números globais ajudam a dimensionar essa realidade. Segundo Loss et al. (2013), gatos domésticos são responsáveis pela morte anual de aproximadamente 1,3 a 4 bilhões de aves e de 6,3 a 22,3 bilhões de mamíferos apenas nos Estados Unidos.
Estamos falando de bilhões, não milhões, bilhões.

A mentira da "voltinha"
Talvez uma das expressões mais eficientes já criadas para mascarar um problema ambiental seja a famosa "voltinha".
A palavra transmite uma sensação de inocência. Parece algo inofensivo. Natural. Até carinhoso.
Mas vamos traduzir essa expressão para o que ela realmente significa.
"Dar uma voltinha" é permitir que um predador circule sem supervisão em um ambiente repleto de potenciais presas. É simples assim.
Não deixamos cães circularem livremente pelas ruas. Não soltamos coelhos em parques. Não permitimos que papagaios voem pelos bairros para satisfazer seus comportamentos naturais.
Mas quando o assunto é gato, muitos “responsáveis” parecem acreditar que existe uma exceção ecológica. Como se os impactos desaparecessem apenas porque esse animal tem uma “necessidade de ser livre”.
A natureza não faz esse tipo de distinção.
A ave morta não sabe se foi capturada por um gato amado, vacinado e bem alimentado. Ela apenas morreu.
Alimentar gatos de rua não é conservação
Outro argumento extremamente popular é a ideia de que alimentar gatos soltos resolveria o problema.
A lógica parece simples: se o gato está alimentado, não precisará caçar.
Seria uma ótima solução se fosse verdade, mas não é.
Gatos continuam caçando independentemente de estarem com fome. A alimentação reduz a necessidade energética. Não elimina o comportamento predatório. Na prática, alimentar colônias de gatos pode produzir justamente o efeito contrário ao desejado.
Mais alimento significa maior sobrevivência. Maior sobrevivência significa mais indivíduos. Mais indivíduos significam mais predadores e mais predadores significam mais animais silvestres mortos.
A matemática é brutalmente simples.
A fauna continua morrendo. A diferença é que agora ela está sendo morta por gatos bem alimentados.
O conto de fadas dos "animais comunitários"
Nos últimos anos, ganhou força a ideia dos chamados "animais comunitários".
O conceito costuma ser apresentado como uma solução humanitária para cães e gatos abandonados. Mas quando analisado sob a ótica da conservação e do bem-estar animal, ele revela uma série de contradições.
Um gato sem responsável continua sendo um gato sem responsável. Receber comida de várias pessoas não muda esse fato.
Ele continua exposto a atropelamentos, doenças, maus-tratos (como no famoso e triste caso do cachorro Orelha), reprodução descontrolada, acidentes e contínua predação da fauna nativa.
O conceito de animal comunitário acaba criando uma situação curiosa. Ninguém é efetivamente responsável mas todos se sentem confortáveis o suficiente para permitir que o problema continue existindo.
Do ponto de vista ecológico, isso significa normalizar a presença permanente de predadores exóticos em áreas urbanas e naturais.
Não estamos resolvendo o abandono, estamos apenas tornando-o socialmente aceitável.
A Mata de Santa Genebra: um problema real e próximo
Muitas pessoas imaginam que esse debate pertence a ilhas oceânicas distantes ou a países estrangeiros.
Não pertence.
Em Campinas, interior de São Paulo, a Mata de Santa Genebra oferece um exemplo bastante concreto.
Trata-se do maior remanescente florestal urbano da região, abrigando uma rica diversidade de aves, répteis, anfíbios e mamíferos da Mata Atlântica.
Ao mesmo tempo, encontra-se cercada por bairros densamente urbanizados.
Isso cria uma situação particularmente delicada. Os limites entre cidade e floresta tornam-se permeáveis e junto com as pessoas, chegam também seus animais domésticos.
Cada gato que entra nesse fragmento representa um predador adicional pressionando populações silvestres que já enfrentam perda de habitat, poluição, fragmentação florestal e atropelamentos.
A Mata de Santa Genebra possui desafios suficientes. Não precisa de predadores extras introduzidos pelos próprios seres humanos.
Conservação seletiva: quando a empatia tem preferência de espécie
Talvez a parte mais desconfortável dessa discussão seja reconhecer que muitas vezes nossa preocupação com os animais não é tão ampla quanto gostamos de acreditar.
Grande parte das pessoas se sensibiliza diante de um gato, mas nem sempre demonstra a mesma preocupação com um sabiá, uma perereca, um gambá ou um lagarto.
Quando esses animais aparecem mortos, frequentemente desaparecem da equação, a discussão passa a girar exclusivamente em torno do gato e essa é uma das maiores armadilhas do debate.
A conservação não pode funcionar baseada em preferências pessoais. A biodiversidade não é composta apenas pelas espécies que consideramos fofas.
Quem é responsável pelas mortes?
Existe um ponto fundamental que precisa ser esclarecido.
Os gatos não possuem responsabilidade moral, eles não entendem conceitos de conservação, não sabem o que é uma espécie ameaçada, não compreendem equilíbrio ecológico. Eles apenas fazem aquilo para o que evoluíram.
Por isso, culpar os gatos é um erro.
O problema nunca foi o gato. O problema é a decisão humana.
Toda vez que um “responsável” abre a porta e permite que seu gato circule livremente pelas ruas, está assumindo conscientemente os riscos dessa escolha.
Não se trata de um acidente, não se trata de um evento inevitável, trata-se de uma decisão.
Uma decisão cujas consequências são pagas pelo gato e pela fauna silvestre.
Muitos responsáveis gostam de se apresentar como amantes dos animais, mas amar animais exige responsabilidade com todos eles, não apenas com aqueles que dormem no sofá de casa.
A verdade que muitos responsáveis não querem ouvir
A fauna brasileira já enfrenta desmatamento, queimadas, fragmentação florestal, atropelamentos, poluição e mudanças climáticas, ela não deveria ter que enfrentar também milhões de predadores subsidiados pelos seres humanos.
A verdade é simples.
Alimentar gatos de rua não é uma estratégia de conservação. Chamar gatos abandonados de "comunitários" não resolve o abandono. Permitir que gatos domésticos tenham acesso livre ao ambiente externo não é um ato de amor à natureza.
É apenas uma forma socialmente aceita de transferir os custos da nossa escolha para a fauna silvestre e talvez a parte mais incômoda de toda essa discussão seja justamente esta:
Quando um gato mata um sabiá, a culpa não é do gato. Quando um gato destrói um ninho, a culpa não é do gato. Quando um gato captura um lagarto em um fragmento de Mata Atlântica, a culpa não é do gato.
O gato está apenas sendo um gato. A responsabilidade pertence a quem decidiu que ele deveria estar ali.
Enquanto continuarmos ignorando essa realidade, a conta continuará sendo paga pela fauna silvestre.
Referências
LOSS, S. R.; WILL, T.; MARRA, P. P. The impact of free-ranging domestic cats on wildlife of the United States. Nature Communications, v. 4, n. 1396, 2013.
WOODS, M.; McDONALD, R. A.; HARRIS, S. Predation of wildlife by domestic cats (Felis catus) in Great Britain. Mammal Review, v. 33, n. 2, p. 174-188, 2003.
DOHERTY, T. S. et al. Invasive predators and global biodiversity loss. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 113, n. 40, p. 11261-11265, 2016.
MEDINA, F. M. et al. A global review of the impacts of invasive cats on island endangered vertebrates. Global Change Biology, v. 17, n. 11, p. 3503-3510, 2011.
WOINARSKI, J. C. Z. et al. How many birds are killed by cats in Australia? Biological Conservation, v. 214, p. 76-87, 2017.



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