O betta no aquário e a empatia seletiva dos seres humanos
- MV. Luiza Alencar

- 17 de jun.
- 5 min de leitura

Se um cachorro passasse a vida inteira em uma caixa de vidro do tamanho de uma mesa de cabeceira, a sociedade provavelmente ficaria horrorizada. Haveria denúncias, campanhas nas redes sociais e discussões sobre maus-tratos.
Mas quando o animal é um peixe, a reação costuma ser diferente.
Milhões de bettas vivem em pequenos recipientes espalhados por residências, escritórios, escolas e consultórios. São frequentemente vendidos como animais "fáceis", "resistentes" e capazes de viver em praticamente qualquer condição. A própria indústria ajudou a consolidar a ideia de que um peixe colorido em um pote é sinônimo de bem-estar.
O problema é que sobreviver nunca foi a mesma coisa que viver bem.
Nas últimas décadas, a ciência acumulou evidências de que os peixes são capazes de sentir dor, medo, estresse, aprender com experiências passadas e até reconhecer indivíduos específicos. Ainda assim, continuamos tratando muitas espécies como objetos decorativos, não como animais com necessidades biológicas complexas.
Essa aparente contradição levanta uma questão desconfortável: será que valorizamos igualmente o bem-estar de todas as espécies ou nossa empatia depende da capacidade que um animal tem de se parecer conosco?
Para discutir essa questão, conversamos com o Dr. João Gabriel Martins Sousa, médico veterinário, pós-graduado em Clínica Médica de Animais Silvestres e Exóticos, pós-graduando em Zoologia e professor universitário.
A popularização dos bettas no Brasil
Quando questionado sobre os motivos que levaram o betta a se tornar um dos peixes ornamentais mais populares do país, João acredita que a combinação entre beleza e a falsa impressão de facilidade no manejo teve papel fundamental.
"Acredito que ele tenha se popularizado pelas cores exuberantes e pela 'facilidade' no manejo. Surgiu como peixe de briga devido à rivalidade dos machos, passaram por alterações genéticas relacionadas ao padrão de cor e chegaram ao mercado pet. As pessoas os criam em aquários pequenos, sem filtragem adequada e com limpeza semanal, o que é totalmente inadequado."
Essa popularização também está ligada a uma crença bastante difundida de que os bettas conseguem viver confortavelmente em recipientes muito pequenos.
Segundo o veterinário, essa ideia surgiu a partir de uma interpretação equivocada da biologia da espécie.
"A ideia surgiu da maneira como os próprios piscicultores os criam: em buracos de água no chão. Na natureza, eles vivem em campos de arroz alagados. Daí veio a ideia da criação, e a informação de que eles vivem em poças d’água com baixa oxigenação acabou se propagando de maneira incorreta."
Como vive um betta na natureza?
Apesar da fama de peixe resistente, o ambiente natural dos bettas está longe da imagem de um pequeno pote ou aquário sem estrutura.
"Eles vivem em regiões alagadas, densas em vegetação e oxigênio. Criá-los em ambientes pequenos prejudica seu crescimento, propicia o aparecimento de doenças e piora a qualidade da água, deixando o animal imunossuprimido."
Quando o peixe demonstra que algo está errado
Ao contrário de cães e gatos, os peixes não vocalizam nem apresentam expressões faciais facilmente reconhecíveis pelos humanos. Ainda assim, existem sinais claros de que um betta está sofrendo com estresse ou com o comprometimento do seu bem-estar.
"Estressado: pontas das nadadeiras lesionadas ou 'quebradas', ausência de atividade, padrão de cor fosco, sem brilho, e o animal permanece apenas no fundo. Saudável: ativo por todo o aquário, cores brilhantes, nadadeiras saudáveis e apetite presente."
Reconhecer esses sinais é fundamental para identificar problemas de manejo antes que eles evoluam para doenças mais graves.

O que a ciência sabe sobre os peixes?
Durante muito tempo, os peixes foram vistos como animais simples, com pouca capacidade cognitiva e memória limitada. No entanto, a ciência vem demonstrando um cenário bastante diferente.
Para o Dr. João, algumas crenças populares já deveriam ter sido abandonadas há muito tempo.
"São animais sencientes, sentem dor e medo. Possuem memória, sim, e se recordam dos seus tutores."
A afirmação reforça um crescente corpo de evidências científicas que demonstra que os peixes são capazes de aprender, reconhecer estímulos e responder de maneira complexa ao ambiente ao seu redor.
A empatia seletiva dos seres humanos
Se sabemos cada vez mais sobre a capacidade dos peixes de sentir dor, medo e estresse, por que ainda nos preocupamos tão pouco com o bem-estar deles?
Para o veterinário, parte da resposta está na forma como os seres humanos se conectam emocionalmente com outros animais.
"São animais sem expressões faciais, e isso dificulta a empatia humana. Os seres humanos se conectam através de expressões, olhares e sons, e esses animais não demonstram isso."
Quando perguntado se nossa empatia pelos animais está relacionada à capacidade de nos identificarmos com eles, a resposta foi direta:
"Com absoluta certeza."
Essa diferença de percepção também influencia quais espécies recebem atenção da sociedade e da própria comunidade científica.
"Sim. E recentemente saiu um estudo mostrando que animais menos 'queridos' recebem menos verba para pesquisas relacionadas a eles, menos atenção do público geral e são mais propensos à extinção."
Uma provocação necessária
Ao longo da entrevista, uma comparação inevitável surgiu.
Se um cachorro passasse a vida inteira em um espaço proporcional ao que muitos bettas ocupam, a sociedade aceitaria isso?
A resposta do Dr. foi imediata:
"Jamais. Não aceitamos cães presos a correntes e aves em gaiolas pequenas. Jamais aceitaríamos essa medida de espaço aplicada a um cão. Porém, também aceitamos para os animais de produção."
A comparação evidencia como nossos critérios de bem-estar podem variar de acordo com a espécie envolvida.
O que precisamos mudar?
Para encerrar a conversa, perguntei qual crença sobre os bettas ele gostaria de ver desaparecer.
Sua resposta revela uma visão bastante diferente daquela popularizada pelo mercado pet.
"São animais que precisam de atenção, que gostam de aquários comunitários. Apesar do hábito solitário imposto, ele é compatível com várias espécies. Ninguém merece viver sozinho, né?"
Muito além de um peixe no aquário
A entrevista com o Dr. João Gabriel Martins Sousa revela uma realidade que talvez não gostemos de admitir: nossa preocupação com os animais nem sempre está relacionada à capacidade deles de sofrer.
Está relacionada à nossa capacidade de enxergar esse sofrimento.
Cães choram. Gatos vocalizam. Mamíferos fazem expressões que reconhecemos com facilidade.
Peixes não.
E talvez seja exatamente por isso que toleramos para eles condições que jamais aceitaríamos para outras espécies.
O mais curioso é que a ciência vem desmontando, há anos, muitas das crenças que sustentam essa negligência. Hoje sabemos que peixes são animais sencientes, capazes de aprender, formar memórias, reconhecer indivíduos e responder emocionalmente a diferentes estímulos. Estudos conduzidos por pesquisadores como Victoria Braithwaite, Lynne Sneddon e Culum Brown demonstraram que os peixes apresentam respostas comportamentais e fisiológicas compatíveis com dor, medo, estresse e aprendizagem complexa.
Mas o conhecimento científico nem sempre se transforma em mudança cultural.
Continuamos comprando bettas para viver em recipientes incompatíveis com suas necessidades biológicas.
Continuamos chamando negligência de praticidade. Continuamos confundindo resistência com ausência de sofrimento.
Talvez o betta seja um dos maiores exemplos de empatia seletiva no mundo dos animais de estimação.
Não porque sofra mais do que outras espécies. Mas porque aprendemos a ignorar seu sofrimento com mais facilidade.
Referências científicas
BROWN, C. Fish intelligence, sentience and ethics. Animal Cognition, 2015.
BROWN, C.; LALAND, K.; KRAUSE, J. Fish Cognition and Behavior. Wiley-Blackwell, 2011.
SNEDDON, L. U. Pain perception in fish: indicators and endpoints. ILAR Journal, 2009.
SNEDDON, L. U.; BRAITHWAITE, V. A.; GENTLE, M. J. Do fishes have nociceptors? Evidence for the evolution of a vertebrate sensory system. Proceedings of the Royal Society B, 2003.
BRAITHWAITE, V. A. Do Fish Feel Pain? Oxford University Press, 2010.
BROWN, C. Fish are intelligent, sentient and socially complex animals. Animal Studies Journal, 2014.



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