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Craques da copa que correm como bichos

  • Foto do escritor: MV. Luiza Alencar
    MV. Luiza Alencar
  • há 6 dias
  • 8 min de leitura

Quando vemos um atacante escapar da marcação e avançar em direção ao gol, é fácil esquecer o quão extraordinário o corpo humano pode ser. Jogadores como Kylian Mbappé, Vinícius Júnior, Erling Haaland, Lionel Messi, Cristiano Ronaldo e Endrick estão entre os atletas mais bem preparados do planeta.


Seus músculos, tendões, pulmões e sistemas cardiovasculares trabalham próximos do limite para produzir arrancadas que podem ultrapassar os 35 km/h.


Mas a velocidade não é uma exclusividade dos estádios.


Muito antes de existirem gramados, uniformes ou bolas de futebol, a natureza já realizava sua própria competição. Ao longo de milhões de anos, a seleção natural moldou animais capazes de correr, acelerar e manobrar com eficiência impressionante. Cada quilômetro por hora conquistado pela evolução teve um propósito: fugir de predadores, capturar presas, percorrer grandes territórios ou encontrar parceiros para reprodução.


O mais curioso é que algumas dessas velocidades não estão tão distantes daquelas registradas pelos maiores craques do futebol mundial.


No Cerrado, nas florestas tropicais, nos campos e nas áreas úmidas do Brasil vivem espécies que alcançam marcas muito semelhantes às dos atletas de elite. E, embora compartilhem números parecidos, os motivos que levam cada animal a correr são completamente diferentes.


Nesta seleção especial, vamos sair dos estádios e entrar nos biomas brasileiros para conhecer animais que dividem a mesma faixa de velocidade de alguns dos maiores nomes do futebol mundial. Mais do que uma simples comparação, esta é uma oportunidade para descobrir como a biomecânica, a fisiologia e a evolução transformaram cada uma dessas espécies em verdadeiros especialistas do movimento.




MBAPPÉ x LOBO-GUARÁ

Mbappé

Lobo-guará

Velocidade máxima: 38 km/h

Velocidade máxima: 40 km/h

Peso: 75 kg

Peso: 20–30 kg

Time: França 🇫🇷

Time: Cerrado Brasileiro 🇧🇷




Kylian Mbappé é frequentemente citado entre os jogadores mais rápidos da história recente do futebol. Sua velocidade não depende apenas da força muscular, mas também da biomecânica do movimento.


O atacante francês possui uma combinação de fibras musculares de contração rápida, grande potência nos membros inferiores e uma técnica de corrida que maximiza o comprimento e a frequência das passadas. Sua aceleração é tão importante quanto sua velocidade máxima, permitindo que ele crie vantagem em poucos metros.


No Cerrado brasileiro, o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) apresenta uma estratégia semelhante. Suas longas pernas aumentam o alcance das passadas e reduzem o gasto energético durante deslocamentos prolongados. Embora seja capaz de atingir aproximadamente 40 km/h, sua anatomia não foi moldada para perseguições intensas como as de um felino.


O lobo-guará é um animal de resistência, capaz de percorrer grandes distâncias durante a noite em busca de frutos, pequenos vertebrados e insetos.


Suas pernas também funcionam como uma adaptação ao ambiente, permitindo que ele enxergue acima da vegetação alta do Cerrado.


VINI JR x  CACHORRO-VINAGRE

Vini Jr

Cachorro-vinagre

Velocidade máxima: 36 km/h

Velocidade máxima: 35–38 km/h

Peso: 73 kg

Peso: 5–8 kg

Time: Brasil 

Time: Florestas Brasileiras 



Vinícius Júnior se destaca não apenas pela velocidade, mas pela capacidade de mudar rapidamente de direção sem perder impulso.


Essa característica depende de um conjunto de fatores biomecânicos, incluindo excelente coordenação motora, baixo centro de gravidade, força explosiva e controle neuromuscular refinado. São essas qualidades que permitem seus dribles em alta velocidade.


O cachorro-vinagre (Speothos venaticus) é um dos canídeos mais raros e menos conhecidos da América do Sul. Apesar de seu pequeno porte, possui um corpo compacto e musculoso, adaptado para movimentação rápida em ambientes florestais. Sua velocidade é utilizada principalmente durante a caça cooperativa.


Diferentemente da maioria dos canídeos brasileiros, o cachorro-vinagre trabalha em grupo, coordenando perseguições que exigem aceleração, mudanças bruscas de direção e comunicação eficiente entre os membros do bando.


Sua fisiologia favorece deslocamentos ágeis em ambientes fechados, onde a manobrabilidade é tão importante quanto a velocidade.


HAALAND x ANTA

Erling Haaland

Anta

Velocidade máxima: 36 km/h

Velocidade máxima: 35 km/h

Peso: 88 kg

Peso: 180–300 kg

Time: Noruega 

Time: Amazônia, Pantanal e Mata Atlântica 



Erling Haaland desafia uma ideia comum no esporte: a de que atletas muito grandes não podem ser extremamente rápidos.


Com quase dois metros de altura, ele combina massa muscular elevada com velocidade impressionante.


Sua biomecânica é baseada em passadas longas, alta potência muscular e grande capacidade cardiovascular, permitindo explosões rápidas mesmo com um porte físico avantajado.


A anta (Tapirus terrestris) é um exemplo semelhante na natureza. Como maior mamífero terrestre do Brasil, pode ultrapassar 300 kg, mas ainda assim atingir velocidades próximas às de Haaland.


Sua musculatura robusta é distribuída principalmente nos membros posteriores, responsáveis pela propulsão durante fugas.


Embora geralmente seja associada a um comportamento tranquilo, a anta é capaz de acelerar rapidamente quando ameaçada. Além disso, possui excelente capacidade natatória, cruzando rios e áreas alagadas com facilidade.


Sua fisiologia combina força, resistência e versatilidade em diferentes ambientes.


MESSI x TAMANDUÁ-BANDEIRA

 Lionel Messi

Tamanduá-bandeira

Velocidade máxima: 32 km/h

Velocidade máxima: 30–32 km/h

Peso: 67 kg

Peso: 22–45 kg

Time: Argentina 

Time: Cerrado, Pantanal e Campos Brasileiros 


Lionel Messi construiu sua carreira não pela força física ou pela velocidade absoluta, mas pela eficiência dos movimentos.


Sua biomecânica é frequentemente estudada por pesquisadores do esporte devido ao seu centro de gravidade mais baixo que a média dos jogadores profissionais. Isso permite mudanças rápidas de direção, melhor equilíbrio corporal e menor gasto energético durante as partidas.


O tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) também é um especialista em eficiência. Embora possa atingir cerca de 32 km/h quando necessário, a velocidade não é sua principal estratégia de sobrevivência. Sua fisiologia foi moldada para uma alimentação altamente especializada. 


A longa língua pegajosa pode ultrapassar 60 centímetros de comprimento e realizar mais de 150 movimentos por minuto. Suas enormes garras, utilizadas para abrir cupinzeiros e formigueiros, são tão desenvolvidas que ele caminha apoiando os nós dos dedos para protegê-las do desgaste. 


Assim como Messi, o tamanduá-bandeira demonstra que desempenho não depende apenas de velocidade máxima, mas de utilizar energia de maneira inteligente.


CRISTIANO RONALDO x  CAPIVARA

Cristiano Ronaldo

 Capivara

Velocidade máxima: 34 km/h

Velocidade máxima: 35 km/h

Peso: 83 kg

Peso: 35–80 kg

Time: Portugal 

Time: América do Sul 



Cristiano Ronaldo é frequentemente lembrado por sua impressionante longevidade esportiva.


Sua capacidade física resulta de décadas de treinamento focado em potência muscular, flexibilidade, composição corporal e condicionamento cardiovascular. Mesmo após mais de vinte anos no futebol profissional, continua atingindo velocidades comparáveis às de atletas muito mais jovens.


A capivara (Hydrochoerus hydrochaeris), maior roedor do mundo, também surpreende quando o assunto é desempenho físico.


Apesar da aparência tranquila, pode atingir aproximadamente 35 km/h em situações de fuga. Seu corpo possui musculatura robusta e membros relativamente curtos, mas eficientes para acelerações rápidas.


Como animal semiaquático, apresenta adaptações adicionais, como olhos, orelhas e narinas posicionados na parte superior da cabeça, permitindo que permaneça quase totalmente submersa enquanto observa o ambiente.


Sua velocidade terrestre é complementada por uma notável habilidade natatória, essencial para escapar de predadores e explorar diferentes habitats.


ENDRICK x  QUEIXADA

Endrick

Queixada

Velocidade máxima: 35 km/h

Velocidade máxima: 35 km/h

Peso: 72 kg

Peso: 25–40 kg

Time: Brasil 

Time: Amazônia e Mata Atlântica 



Endrick representa uma nova geração de atletas que combinam potência física, aceleração e intensidade de jogo.


Apesar da pouca idade, já chama atenção pela capacidade de gerar força rapidamente, característica associada ao desenvolvimento muscular e à predominância de fibras de contração rápida.


O queixada (Tayassu pecari) compartilha essa característica de intensidade.


Diferentemente dos javalis ou porcos domésticos, ele vive em grandes grupos sociais que podem reunir dezenas ou até centenas de indivíduos.


Sua velocidade é utilizada tanto para deslocamentos coletivos quanto para fugas diante de predadores. A musculatura compacta e o centro de gravidade baixo proporcionam estabilidade durante corridas em terrenos irregulares da floresta.


Além disso, o comportamento coletivo funciona como uma estratégia complementar à velocidade: um bando de queixadas em movimento é uma das demonstrações mais impressionantes de coordenação da fauna brasileira.


Muito além dos gramados


Quando observamos apenas os números, pode parecer surpreendente que um lobo-guará corra quase tão rápido quanto Mbappé, que uma capivara acompanhe Cristiano Ronaldo ou que um tamanduá-bandeira alcance velocidades semelhantes às de Messi.


No entanto, a verdadeira curiosidade não está na velocidade em si, mas nos caminhos evolutivos que levaram a ela.


Enquanto os atletas treinam durante anos para aprimorar sua performance, os animais foram moldados por milhões de anos de seleção natural. Cada músculo, tendão, osso e adaptação fisiológica presente nessas espécies surgiu porque aumentava suas chances de sobrevivência. O que vemos hoje é o resultado de uma longa história evolutiva.


Essas comparações também nos lembram de algo importante: muitos dos animais que compartilham características com os maiores craques do planeta vivem em ecossistemas que enfrentam ameaças crescentes. A perda de habitat, os atropelamentos, os incêndios florestais e a fragmentação das paisagens naturais colocam em risco espécies que desempenham papéis fundamentais na manutenção dos ecossistemas brasileiros.


O lobo-guará ajuda a dispersar sementes pelo Cerrado. A anta é considerada uma das grandes jardineiras das florestas tropicais. Os queixadas remodelam o solo enquanto se deslocam em bandos. O cachorro-vinagre atua como predador e auxilia no equilíbrio das cadeias alimentares. Cada um desses animais contribui para a saúde dos ambientes que habitam.


Talvez essa seja a maior lição desta comparação entre futebol e natureza. Por trás de cada velocidade impressionante existe uma história de adaptação, sobrevivência e equilíbrio ecológico.


Os craques entram em campo diante de milhões de espectadores. Já os atletas da fauna brasileira continuam sua partida silenciosa todos os dias, longe dos holofotes, desempenhando funções essenciais para os biomas do país. E, assim como acontece no futebol, eles também merecem uma torcida apaixonada para garantir que continuem em jogo pelas próximas gerações.



Referências

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